Início
04 de setembro de 2010
 
 
Eder Chiodetto Imprimir E-mail
09 de fevereiro de 2007
Em primeiro lugar gostaria de agradecer a todos que se manifestaram sobre a crítica que publiquei na Folha (em 27/01), na qual expressei minha opinião acerca do fotojornalismo contemporâneo, tendo por base a mostra "Fotojornalismo 2006 - Fatos e Histórias do Cotidiano", organizada pela ARFOC-SP, em cartaz no Centro Cultural São Paulo. Das cerca de 60 mensagens que recebi, a esmagadora maioria concorda totalmente ou em partes com o que escrevi. Mas, posto que "toda unanimidade é burra", como nos lembra Nelson Rodrigues, recebi com prazer opiniões divergentes.

Mesmo as poucas e tolas mensagens de pessoas que partiram para um certo revanchismo fora de hora e de moda (porque claramente vestiram a carapuça), serviram para mostrar que, felizmente, o "pulso ainda pulsa"... Em segundo lugar, antes de voltar aos argumentos da crítica, quero deixar claro pontos que para mim são fundamentais. A minha análise é de conjuntura. O que digo na crítica não diz respeito a este ou aquele veículo em especial, tampouco a este ou aquele profissional. Aplica-se à mídia brasileira e a grande parte da mídia impressa internacional que tenho pesquisado também.

Portanto, se a mostra fosse realizada em Nova York, Zurique ou Istambul, muito provavelmente os problemas que aponto seriam os mesmos. O local, nesse caso, é o microcosmo do global. Estou discutindo um momento histórico e não a produção dos repórteres-fotográficos de SP em específico. Tanto que abri o texto na Folha dizendo que a mostra é "sintomática da crise por que passa a representação visual da notícia na contemporaneidade".

Desta forma, quero deixar muito claramente expresso aqui o meu respeito e admiração profissional pelos três curadores da mostra e pela direção da ARFOC-SP que, na atual administração, tem feito elevados e reconhecidos esforços no sentido de mobilizar e suscitar debates numa categoria que sabemos ser historicamente pouco unida e combativa. Penso que muitos dos problemas que apontei em minha análise podem vir a ser resolvidos ou atenuados a partir dessa união da classe, do debate isento de egos e de uma atitude mais aguerrida que parecem ser os preceitos que norteiam algumas ações e os ideais da ARFOC-SP.

Colocado isso, vamos voltar ao debate para tentar diluir algumas interpretações equivocadas que li nos emails. Só algumas porque seria impossível responder pontualmente a tudo o que foi levantado nas duas últimas semanas (eu estava viajando por isso só agora pude me pronunciar). Quando falo da busca desenfreada pelo impacto, da estetização excessiva e tal, estou apontando maneirismos que os repórteres-fotográficos exercitam cada vez mais, no meu entender, como uma forma de conseguir obter, desesperadamente, um lugar ao sol nas páginas de jornais e revistas, onde ele rivaliza com imagens de anúncios, invariavelmente perfeitas e sedutoras para estimularem o consumo.

Se isso é uma demanda do fotógrafo ou do veículo para o qual ele trabalha, é para ser pensado. Como um não existe sem o outro, penso que é um acordo silencioso entre as partes. Repito, não podemos confundir "reportar" fatos, com "vender" notícias. E isso não tem nada a ver, como alguns disseram, com deixar de fazer imagens esteticamente bem resolvidas. Fotografar é interpretar. Interpretar é da ordem da subjetividade. Por isso todo registro fotográfico não expressa o real em si - posto que é impossível - mas carrega em si vestígios desse real que, ao final, irá gerar uma segunda realidade, a realidade do documento; somatória das crenças, da cultura e da ideologia do fotógrafo. Logo, todo ato criativo, quando fruto de uma expressão genuína, é bem vindo.

Mas ser obrigado a compor a imagem com espaço para caber o título dentro, recorrer sem critérios a lampadinhas coloridas e gelatinas no flash, fotografar pela enésima vez o político fazendo gracinha para a lente e outros cacoetes manjados, argh! Não dá mais! Como lembrou Hélcio Toth: "É o avanço da fotopublicitária no fotojornalismo, e já faz tempo que isso tem acontecido". Estetizar, a meu ver, também é uma forma de maquiar que na imensa maioria das vezes fazemos coberturas de superfície. Já que as histórias são superficiais, que ao menos sejam bonitinhas, parece ser a lógica. Boas histórias são jogadas no lixo simplesmente porque os veículos jogam na defensiva. Com medo de levar furos, noticia-se tudo num espaço exíguo, o que acaba por retalhar o espaço editorial, já escalpelado pela publicidade.

Desprezar o excesso de informação (afinal no dia seguinte já vimos o factual todo na internet, não é mesmo?) para priorizar reportagens próprias narradas em profundidade, seria o ideal. Mas quem que correr riscos? A resultante deste processo perverso, é que nossa história cotidiana está sendo narrada de forma pobre, sem estímulo ou originalidade, pautada pelo óbvio. Pergunta-exemplo: você consegue reconhecer nas fotografias dos cadernos de cidade dos jornais paulistanos essa cidade incrível, multifacetada, desigual e, portanto, um celeiro de pautas, que é São Paulo? Eu não. Mas não adianta vir com a ladainha de que "a culpa é dos veículos" e pronto. Esse é o discurso de quem virou funcionário e esqueceu sua alma de repórter.

Como nos lembra o depoimento de Andersom Barbosa no site da ARFOC: "penso que ninguém seja fotojornalista apenas pela profissão. Há algo além dessa regra social que nos faz ser fotojornalistas, que está na nossa visão de mundo, na nossa perspectiva frente às coisas que capturamos com nossas câmeras! Pra mim ao menos, é condição de existência!". Se ser fotojornalista é nossa "condição de existência", até quando vamos deixar que algo tão essencial em nossas vidas siga sendo tão tripudiado? Se é nossa condição de existência, vamos produzir nossas próprias histórias e divulgá-las além das redações. E é nesse ponto que digo que não demos resposta ainda ao nosso tempo. Os jornais sofrem a crise do alto preço do papel.

Ao mesmo tempo em que diminuem o espaço editorial são levados a aumentar suas receitas vendendo anúncios. Cada vez menos veremos reportagens fotográficas impressas. Como diz Marlene Bergamo, num arroubo corajoso após dizer que essa polêmica toda "é bem fraquinha": "se a gente quisesse mesmo falar sério, estaríamos trabalhando para fazer um jornal, revista, ou qualquer publicação importante que fosse barato, popular e bom. Que pudesse fazer a diferença com os grandes jornais e revistas". Ou seja, precisamos nos reinventar.

Para aqueles que estão conformados com a pasmaceira vigente, boa sorte. Para aqueles que de fato têm sangue de fotojornalista e não se satisfazem em cobrir diariamente seu entorno com superficialidade, vamos à luta. A tecnologia também veio para libertar o fotógrafo de seus veículos engessados. Abra um site, um fotoblog, publique seu ensaio fotográfico, aposte nas suas histórias. Veja os ensaios do pessoal da Cia. de Foto, o documentário do João Wainer, as últimas fotos do ensaio pessoal do Tuca Vieira sobre São Paulo. Quando nossa produção ganhar em qualidade e autonomia será o mercado que terá que dar respostas a nós, e não ao contrário, como acontece hoje.
Abraços fraternos,
Eder Chiodetto
Tieso

Digipix

Anúncio ARFOC-SP

Portfolios
 
Top! Top!